O complexo do vira-lata e a vontade de ser aceito por estrangeiros

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via O complexo do vira-lata e a vontade de ser aceito por estrangeiros

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Ao Presidente-eleito Jair Bolsonaro
Ao futuro Ministro da Justiça Sérgio Moro

Índios não estão em reservas, muito menos em zoológicos. Índios vivem em territórios próprios que são garantidos pela Constituição Federal de 1988 e por todas as constituições desde a de 1934.

Terras indígenas são constitucionalmente terras da União. Os índios têm o direito a viver e ter o usufruto exclusivo dessas terras.

AS terras foram reconhecidas pelo Estado brasileiro via o antigo e venerando Serviço de Proteção aos Índios (SPI), criado em 1910 pelo Marechal Rondon, e a atual Fundação Nacional do Índio, criada em 1967 pelo regime militar.

As terras indígenas têm sido constitucionalmente delimitadas e demarcadas pela FUNAI e homologadas pelos presidentes da República ao longo de mais de 100 anos. Depois elas são registradas no Serviço do Patrimônio da União como terras da União sob o usufruto exclusivo dos próprios índios.

As terras indígenas, por serem da União, não são aptas à venda ou ao arrendamento ou ao usufruto de quaisquer estranhos.

Os índios vivem em suas terras e delas saem para viver, se quiserem, em vilas e cidades brasileiras. Os índios se educam em suas próprias culturas e concomitantemente pelas instituições educacionais brasileiras supervisionadas pelo Ministério da Educação.

Vamos portanto louvar, honrar e bater continência para quem criou o sistema indigenista brasileiro: o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, o mais respeitado e honrado militar brasileiro.

G1.GLOBO.COM
Índios em reservas são como animais em zoológicos, diz Bolsonaro
Presidente eleito afirmou que não se justifica reserva maior que o estado do RJ para abrigar 9 mil ianomâmis. ‘O índio é um ser humano igualzinho nós, querem o que nós queremos’, declarou.

Krohokrenhum deixa grande legado ao seu povo Gavião

Conversando com Krohokrenhum

2006

Ontem à noite, em Belém do Pará, faleceu o grande líder do povo Gavião, o cacique Toprãmre Krohokrenhum Jõpaipaire, vítima de uma septicemia provocada por uma tuberculose não curada. Tinha cerca de 85 anos.

Krohokrenhum, ou o Capitão, como era mais conhecido, deixa ao seu povo um legado impressionante de sabedoria, coragem, ousadia, inteligência, espiritualidade, fé e lealdade à cultura indígena e esperança de que o mundo dos índios e o mundo dos brancos se tornem melhores e mais harmoniosos.

Krohokrenhum era o líder inconteste não só do seu povo, os Parkatejê, mas também dos dois outros subgrupos que compõem a etnia chamada de Gavião, os Kyikatejê e os Akrãtikatejê. Era líder por mérito, por ter demonstrado desde sua juventude a capacidade de tomar decisões ousadas e certas e assim levar seu povo para melhores condições de vida, quando a situação ficava extremamente difícil. Como líder, Krohokrenhum sabia comandar, mas antes sabia ouvir e ponderar. E sabia ser generoso para com todos, com suas ideias e seus bens.

Nascido por volta de 1930, Krohokrenhum cresceu e tornou-se homem vivendo unicamente sua cultura original. As matas livres, a oeste o glorioso rio Tocantins, a leste uma pequena cadeia de montanhas, e as cabeceiras do rio Moju para o norte. Porém, aos poucos foi se dando conta de que havia gente diferente chegando e penetrando em seu território tradicional, provocando alarme em todo seu povo. Krohokrenhum vivenciou os momentos de migrações, fugas e escapes para terras mais remotas, e sentiu o quanto isso foi mudando seu povo, criando dissensões e conflitos entre si. Como destemido guerreiro que era, participou das lutas fratricidas (que ele chamava de ‘ tempo da guerra’) entre os subgrupos que compõem o povo Gavião: ao sul o subgrupo Kyikatejê, ao norte os Akratikatejê, e os Parkatejé ao meio do curso do Tocantins. Nessas lutas e fugas, os Parkatejê, já muito sofridos por mortes e doenças, foram vendo o jovem Krohokrenhum se destacando como um líder que sabia o que fazer e não tinha medo de enfrentar os desafios tão duros e desconhecidos.

Da parte da sociedade brasileira envolvente, desde inícios do século XIX sabia-se da existência dos índios Gaviões na região do sudeste do Pará o oeste do Maranhão, mas sua presença só veio ficar mais evidente a partir dos anos 1930. Inserida na grande floresta amazônica, o território Gavião constituía uma região de muita mata pujante e muitos castanhais, e eis então que a castanha do Pará estava se valorizando. A vila de Marabá fora fundada no início do século XX e a região estava sendo tomada de imigrantes nordestinos. Em 1943, pressionado pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI, que antecedeu a FUNAI), o governo do Pará delimitou uma área de 62.000 hectares, à beira do rio Tocantins, entre os igarapés Flecheira e Jacundá, para ser uma reserva de terras para o povo Gavião. Com efeito, essa gleba de terras, chamada desde então de Mãe Maria, fazia parte do território do subgrupo Parkatejê, mas nenhum subgrupo Gavião havia sido contatado até então. Era só uma providência prévia, algo que às vezes a direção do SPI, com o General Rondon à frente, tomava para garantir terras aos índios, antes que tudo viesse a ser tomado por aventureiros, como aconteceu em diversos casos.

Em meados da década de 1950, o subgrupo Parkatejê foi contatado por um missionário dominicano, num local chamado Praia Alto, a alguns quilômetros da cidade de Marabá. Logo depois veio uma equipe do SPI e estabeleceu um pequeno posto indígena. Os Gaviões Parkatejê foram acometidos então por diversas doenças, como gripes e sarampo, que foram dizimando os velhos e os muito jovens. Quando foram visitados pelos antropólogos Roberto da Matta e Roque Laraia, em 1962, eram apenas 17 pessoas. Esses antropólogos escreveram uma pequena monografia em que descrevia uma situação terminal para os Gaviões. Parecia não haver saída e os Gaviões estariam a caminho da extinção. Acontece que não.

Comprimidos pela presença de brancos, os Parkatejê se mudaram para a Terra Mãe Maria, já demarcada para eles, em 1965, e passaram a “cortar” castanha para vender. Nesse momento desponta a figura de Krohokrenhum, que logo observa que o pessoal do SPI e depois da FUNAI, levava parte do dinheiro que se obtinha com a venda da castanha. E dá seu primeiro passo de ousadia. Passam a vender ele mesmo e seu povo a castanha que eles colhem e processam minimamente. Às vezes vão até Belém, alugando um caminhão, porque lá o preço parece melhor.

Alguns anos depois, o segundo grupo Gavião, os Kyikatejê, que viviam no Maranhão, é contatado por uma equipe do SPI, principalmente porque a estrada Belém-Brasília estava movimentando toda uma área ao redor e a quantidade de posseiros aumentava a cada dia. O contato foi terrível para esse subgrupo e muitos morreram. Finalmente, foram transferidos para a Terra Indígena Mãe Maria, onde Krohokrenhum e seu grupo lhes deram as boas vindas.

Alguns anos depois um terceiro subgrupo Gavião, os Akrãtikatejê, contatados anteriormente pela FUNAI, que viviam numa área onde estava sendo construída a Hidrelétrica de Tucuruí, por mais que insistissem, não conseguiram que a FUNAI demarcasse alguma parte que fosse de seu antigo território e assim foram forçados a sair de onde estavam e vir morar também com os Parkatejê. Krohokrenhum e seus liderados deram as boas vindas a todos. Os Gaviões pareciam unidos pela primeira vez em muitos anos. O bom resultado disso é que passaram a casar uns com os outros e a população começou a crescer. De pouco mais de 60, em 1970, somam hoje perto de 900 pessoas, incluindo mais de uma centena de índios de outras etnias que se aproximaram dos Gaviões.

Krohokrenhum foi fundamental em juntar os subgrupos Gaviões e passou a ser o líder de todos. Quando a Eletronorte resolveu passar o linhão de transmissão que vinha da Hidrelétrica de Tucuruí pela Terra Indígena Mãe Maria, foi a vez de Krohokrenhum exigir compensação por essa passagem. Afinal, estava cortando sua terra e causando impactos ambientais. Ao mesmo tempo, uma estrada foi construída e novamente Krohokrenhum exigiu compensações ambientais e financeiras. Assim, os Gaviões, junto com seu trabalho na castanha, foram conseguindo sobreviver sem a ajuda da FUNAI, por seus próprios esforços, por sua capacidade de demonstrar que sua terra não pertence à União, é terra própria. Krohokrenhum foi dos primeiros índios a exigir com clareza meridiana os direitos de usufruto contra a atitude prévia da FUNAI e do governo federal de usar a terra indígena como bem fosse necessário para seus interesses.

Chegando à década de 1980, a Companhia Vale do Rio Doce, tendo descoberto a grande mina de Carajás, com grandes quantidades de  ferro, ouro, bauxita, cobre e outros minerais, resolveu construir uma estrada de ferro para escoar sua produção. O trajeto da ferrovia atravessaria a Terra Mãe Maria. Todo mundo se mobilizou para que os Gaviões deixassem a ferrovia passar. Porém, os Gaviões exigiram uma compensação, a qual, para aquela época, parecia razoável: um milhão de dólares. Mais uma vez, o protagonismo de Krohokrenhum foi essencial.

Pois bem, a estrada passou, o dinheiro foi usado para construir uma nova aldeia, nos moldes tradicionais, mas com casas de alvenaria, e com luz elétrica e água encanada. Isso era algo inaudito entre os povos indígenas.

Passado um tempo, a Companhia Vale do Rio Doce foi privatizada e os novos donos resolveram endurecer com os Gaviões. Os Gaviões reagiram e uma nova compensação foi negociada para durar pelo tempo da passagem da ferrovia.

Com isso a compensação aumentou bastante e isso trouxe um novo problema: a vontade dos grupos de se dividirem para cada qual tratar dos recursos recebidos. E a divisão aconteceu, apesar de todo o esforço de Krohokrenhum para que todos permanecessem unidos. A situação atual é tal que há cerca de 8 aldeias, cada qual com sua própria associação e tratando de suas próprias questões.

Nos últimos meses de vida o Capitão Krohokrenhum recebeu muitos índios de outras aldeias que estavam se reaproximando. O Capitão esperava que, aos moldes da cultura de seu povo, algum tempo levaria até que todos viessem a ser reunidos. Sutilmente passou recados para os líderes de outras aldeias.

Infelizmente, sem ninguém esperar, Krohokrenhum passou mal numa tarde, ao se levantar de sua cadeira, e foi levado para o hospital de Marabá. Doia-lhe o ouvido e um cansaço no peito. Foi medicado e voltou.

Alguns dias depois seu estado de saúde piorou e correram com ele para Belém. Foi diagnosticado com tuberculose, algo inesperado. O Capitão nunca havia demonstrado nenhum sintoma dessa doença. Até uns semanas atrás, saia para caçar e caminhar por horas pela mata.

Ontem, à noite, já na UTI, em Belém, o Capitão Krohokrenhum faleceu. Deixa um legado rico de experiências, um exemplo de indígena que soube se posicionar com firmeza diante das autoridades da FUNAI, das prefeituras, dos órgãos estatais, dos ministros, de todos que o procuravam. Amava seu modo de vida, seus parentes, seus amigos, e também aqueles que estavam contrariados com ele. Gostava de acordar cedo e conversar com quem também madrugava. Contava histórias de antigamente para os mais novos e fazia questão de observar os preceitos mais importantes da cultura Gavião e de realizar os principais rituais que agregava a sociedade. Sabia que sua luta era para manter seu povo íntegro, ainda que seduzidos pelos recursos que recebiam da Vale pela passagem da ferrovia. Isso ele vinha conseguindo manter.

Seus parentes próximos estão desolados. Todos nós estamos desolados pelo seu falecimento inesperado. Só desejo que os Gaviões tenham sabido ouvir seus ensinamentos na área da cultura e na arte da política. Eis o seu grande legado.

(Na foto, tirada em 2006, quando eu era presidente da FUNAI. Converso com Krohokrenhum no barracão onde havia instalado uma máquina de beneficiar farinha de mandioca)

Como vota o Congresso nas grandes questões

Como vota o Congresso Nacional

450 votos contra Cunha tomaram muita gente de surpresa. Aliás, os 367 votos contra Dilma já haviam chocado muitos de nós. Como se deram essas votações? Aliás, como se dão as votações no Congresso sobre temas candentes e espinhosos?

A primeira e mais fácil resposta é que o Congresso sempre ouve o ronco das multidões e teme pelo julgamento dos eleitores. Assim, basta o povo ir às ruas e as pesquisas apontarem para um certo lado que os parlamentares abraçam uma causa. É o que se fala do impeachment do Collor.

A segunda resposta diz que os parlamentares são comprados pelo governo e votam na direção que o governo indicar. É o que recém falou Cunha sobre sua derrota.

A terceira é que há questões de foro íntimo, sobre as quais os parlamentares seguem seu próprio juízo, mesmo que isto leve a mudanças de posições prévias. É o que pretendem os bem-pensantes do Congresso.

Uma quarta explicação é que o Congresso é dividido em duas partes, chamadas de alto e baixo clero. Quando o alto clero está com o domínio da pauta e dos momentos históricos, o baixo clero o segue. Quando acontece de surgir um líder do baixo clero que tem peito, o resto soçobra aos seus caprichos. É o que pensam muitos jornalistas.

Uma quinta explicação, a mais tradicional, é que o Congresso é ditado por tendências políticas em um espectro que vai da ‘extrema’ esquerda à ‘extrema’ direita, havendo, ao correr dos debates e temas, alinhamentos dos segmentos mais próximos entre si. É o que pensam os ideólogos, de um lado ou do outro.

E há uma sexta explicação que leva essas cinco primeiras explicações em alguma consideração e adiciona outra. Em geral, esta quinta explicação é cultivada por políticos tarimbados, que já vivenciaram por muito tempo os mecanismos internos do Congresso.

Pensam os políticos tarimbados que todo Congresso brasileiro (nem sempre o pior a cada eleição, como ironizou Ulisses Guimarães) se divide em três partes mais ou menos iguais. A primeira é formada pelos ‘bons’ parlamentares, os que entraram na política por vocação e que, no fundo, almejam avançar em suas carreiras e seus pleitos. Podem vir de quaisquer partidos e se dedicam a trazer benefícios para seu eleitorado, visando seu reconhecimento e reeleição ou avanço político. O segundo segmento é composto dos pilantras, aqueles que entram na política para ganhar dinheiro, prestígio social e poder na sociedade. Estes passam seu tempo procurando meios de achacar a quem tenha alguma necessidade do seu posicionamento político no Congresso ou em qualquer instância política, como as prefeituras e os estados. Enfim, o terceiro segmento é dos oportunistas, aqueles que vão para onde o vento sopra. Se for para o lado do achacamento político eles metem a cara e procuram se aproveitar das migalhas que lhes sobram. Se o vento soprar para o lado da ‘seriedade’ política eles se acabrunham e se tomam de valores éticos, ainda que, para muitos, nunca dantes manifestados.

A derrota acachapante de Eduardo Cunha parece indicar que esta sexta explicação faz mais sentido. Talvez porque foi tão significativa pela maioria de 89% dos votos (incluindo as abstenções e ausências), quase um feito norte-coreano. Em menor proporção, isto se aplica à derrota de Dilma Rousseff, por 72% dos votos contrários (367). Entretanto, há que se entender que, dos 137 votos a favor de Dilma, pelo menos 80% vieram de partidos que estão no espectro da esquerda, sendo os demais 20% votados por membros de partidos que se alinham à direita. Aplica-se igualmente no caso da votação do impeachment no Senado.

Temas muito espinhosos, como a legalização do aborto, o controle da expansão do agronegócio e quaisquer mexidas no sistema político-eleitoral brasileiro, abrangem todo o espectro político-ideológico. Poucos políticos têm coragem de tocar nesses temas, que envolvem uma grande contradição entre ética e realidade. É possível, então, que a sexta explicação não se aplique a essas decisões. Mas, de fato, são poucos os casos espinhosos ou os dilemas espinhosos da cultura brasileira que são levados a discussão congressual. Por enquanto, eles vêm sendo levados ao judiciário, que não precisa de votos para agir.

Nesses últimos tempos o Brasil passou por uma efervescência política impressionante. Os comentaristas no exterior estão admirados de que tenhamos atravessado todo esse emaranhado de pressão social, desgastes econômicos e contradições ideológicas e ainda assim termos mantido nossa democracia hígida e funcionando. Só que não sabem que estamos a meio caminho.

 

Nas Olimpíadas a Seleção brasileira levanta e sacode a poeira

A vitória do Brasil sobre a Alemanha, nos penaltis, depois de um intenso empate de 1 X 1, com prorrogação, vem demonstrar alguns pontos que estavam se consolidando nesses últimos cinco jogos da Seleção brasileira olímpica.

O primeiro é este que está estampado na manchete. Isto é, a Seleção olímpica jogou de um modo diferente do que a Seleção principal vinha jogando nos últimos 10 anos, digamos assim. Finalmente, surgiu um padrão de jogo, conforme está analisado na matéria do UOL, e este padrão tem algo de futebol europeu, porém, de um modo que nos pareceu natural, e não imposto. Há muitos anos não tínhamos uma defesa tão segura e uma saída de bola tão fácil. Nesse sentido, o posicionamento do jogador Renato Augusto desponta como o grande achado do técnico Micale. Ele dá cobertura à defesa e produz uma excelente saída de bola — além de, naturalmente, avançar ao ataque quando acha possível, sem comprometer seu papel de 2º volante.

O segundo ponto é que Neymar finalmente deu uma boa amadurecida como capitão, ou, senão, como um líder por mérito. É evidente que Neymar não tem personalidade de líder natural, mas teve que incorporar essa atitude em função da falta de fibra que havia tomado conta da Seleção desde a desmoralizante derrota para a Alemanha, em 2014. Neymar mostrou-se à altura da necessidade brasileira. Assumiu, inclusive, o ônus de bater em jogadores adversários que não paravam de provocar e bater nele e nos demais jogadores. O jogo contra a Colômbia, quando Neymar saiu em perseguição e deu uma bruta rasteira num jogador colombiano que havia cometido uma descortesia ao não devolver a bola foi sinal claro e evidente de uma liderança moral. Com esse gesto até perigoso (pois quase deu em sua expulsão) Neymar passou o recado: ninguém bate em jogador brasileiro sem levar o troco. Respeitem o futebol brasileiro, que não bate à toa, nem é covarde no jogo. Para lembrar o 7 X 1, atribuo essa escalafobética derrota à falta de liderança no nosso time, à falta evidente de Neymar (que teria arrefecido a ousadia alemã), e especialmente ao espírito europeizado e acovardado dos jogadores brasileiros que, de tanto bajular os jogadores e técnicos europeus, de tanto mudar seus estilos de jogar para ganhar espaço nos seus times, não sabiam como jogar futebol à brasileira, seja na técnica, seja na raça, seja na ética.

Portanto, esta vitória apertada do Brasil contra a Alemanha valeu muito. Valeu para os jogadores, para o futebol nacional e para o povo brasileiro. Certamente valeu muito para mim, que vejo o futebol como um espelho distorcido de nossa cultura, que mostra, enviesadamente, aquilo que está acontecendo entre nós. A derrota de 7 X 1 nos expôs como um povo sem fibra, inseguro, alienado, entregue ao poder, tal como a derrota contra a França em 2006 nos mostrou uns narcísicos bobos e deslumbrados. Tudo isso tinha a ver com os tempos político-culturais em que vivÍamos — mas aqui não há espaço para defender essa tese em sua completude.

Que tempos culturais vivemos hoje, não podemos dizer com nenhuma segurança. A vitória do Brasil augura tempos de alguma esperança. Algum mau olhado está saindo de nós. As vitórias de gente do povo, como Fabiana Silva, Erlon dos Santos e isaquias Queiróz sinalizam que há esperança de ascensão social, que o que foi plantado pode dar frutos, e que é preciso mais inteligência para continuarmos numa trajetória ascendente.

Para terminar, mais um pouco de análise tática do jogo do Brasil. Ficou evidente que o Brasil joga diferente dos alemães. Os alemães jogam um jogo coletivo de cabo a rabo. Ninguém se precipita para resolver uma jogada difícil. Há sempre alguém para ajudar. Já no nosso futebol, a bola é constantemente rifada nos pés e no espírito criativo do nosso jogador. A possibilidade de um passe ou de um drible é de 50% de uma opção ou outra. Para o alemão é 90% para o passe e só 10% para um drible criativo.

Será bom ou ruim isso para o Brasil? Bom, excelente, claro, só assim seremos especiais. Mas é preciso diminuir essa porcentagem do drible genial para algo em torno de 30%. Já seria muito bom, e aí teríamos uns 70% de chances de progredir com mais espírito coletivo e ter mais possibilidades de fazer gols.

O mesmo vai para nossa cultura. Diminuamos as chances de palpites, genialidades, criatividades, surpresas, improvisações, deixar para a última hora, porque, ao final, isso só nos infantiliza e perpetua nossos pontos fracos. Um pouco mais de disciplina, planejamento, previsibilidade, organização nos faria muito bem. Sobre esse patamar de 70%, dá para vencer em quase tudo com 30% de criatividade.

O ouro não é o único saldo da seleção olímpica: o time vencedor mostrou uma nova forma de jogar, com tática mais próxima da europeia, compactação e…
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Na casa da Vovó, de Francisco Antonio Doria

Na casa da Vovó

Na casa da Vovó

Nem só de Olimpíadas vive o homem. Entre uma pernada de uma jogadora, um salto de vara espetacular, uma corrida fenomenal, um soco no queixo, uma lufada de vento, uma remada vigorosíssima e uma sacada fulminante, eis que existe vida a se viver.

E eis que, no tempo entre fazer mercado, limpar coco de cachorro, lavrar pratos e algumas horas de sono, temos livros para ler e papers para escrever.

Nesses intervalos me caiu na mão o livro Na casa da Vovó (Editora Revan, 2015) de Francisco Antonio Doria, meu primo de 13 gerações atrás, segundo ele mesmo, grande genealogista, heraldista e memorialista que é – sempre nas horas vagas – porque na verdade o cara é um baita de um físico que faz pesquisas e descobertas não nos laboratórios, mas perscrutando pela matemática e pela lógica.

Ser brasileiro de quatro costados é pouco para Doria. Ele também é italiano, espanhol, inglês e africano de tantos outros costados. Nos últimos anos ele nos vem deliciando com seus achados genealógicos sobre sua família e a família de outros parentes e amigos. Neste livro ele mostra que vem de parentelas de quase todos os estados litorâneos brasileiros, estados formados nas primeiras décadas coloniais. Mas, para infelicidade histórica e genealógica de Doria, ele não poder dizer que seu ta-ta-ta-taravô era mineiro. Ponto para seu primo Chico Buarque.

Na casa da Vovó é um livro das memórias de Doria sobre sua juventude e os primeiros anos de sua formação intelectual adulta. Pela extraordinária memória que Deus lhe deu, Doria puxa fatos da década de 1950 e principalmente dos anos 60 e os relata como se estivesse num sofá, com voz mansa, um sorriso irônico e gozador, e sempre com um sentimento de franqueza e lucidez. Ele presenciou eventos importantes desses anos, não somente por via dos seus parentes (que têm simpatizantes altivos tanto da direita braba brasileira quanto da esquerda comunista), mas por via dos colegas intelectuais e acadêmicos que conheceu e com quem se relacionou ao longo dessas duas décadas.

A casa da avó (porque a matriarca de origem gaúcha é quem mandava) de Doria era um desses sobradões de Copacabana centrada num belo terreno cheio de fruteiras, lá pelas bandas da Constantino Ramos. Acho que não há mais desses casarões em Copa, mas ainda sobraram alguns em Botafogo, talvez os maiores e de donos que não perderam suas fortunas. É, os pais de Doria deixaram de ser ricos em algum momento, e o homem vive hoje contentemente de seu labor.

O que mais nos convoca a ler esse livro são as memórias e os relatos de Doria sobre os anos 60, o início da ditadura militar, o furor pós-AI-5, o trabalho na Enciclopédia Delta-Larousse com intelectuais do porte de Luis Costa Lima e Antonio Houaiss, seu primeiro livro sobre Herbert Marcuse, sua participação nos bastidores do movimento anti-ditadura.

Não há nenhum alarme ou sensacionalismo nessas memórias. Doria escreve como se estivesse perto e ao mesmo tempo longe desse tempo, sofreu-o como um militante suave da esquerda brasileira, um ator-observador do seu tempo. Doria não pretende nada mais do que isso. Relatar com afeto e despretensiosamente um tempo importante de sua vida.

Importante para todos nós, também, que estamos sempre tentando entender como se deram aqueles tempos, por que e como a ditadura foi implantada e durou tanto tempo. Talvez cada leitor possa, a seu modo, sentir o que esse livro pode dizer sobre os nossos tempos. Doria tem suas ideias, mas as trata com delicadeza e não as expõe em demasia. Cada um que viva como pode, pensa ele. E com a devida e possível dignidade.

Se der tempo, procurem ler Na casa da Vovó, ainda nessas Olimpíadas. Ou logo depois.

Futebol brasileiro em espírito de renovação

Com esses últimos cinco jogos, o Brasil deu um passo grande em direção, não somente à tão almejada medalha olímpica, mas a uma nova configuração do nosso futebol e da nossa seleção. Neymar assumiu a condição de capitão e líder, tanto pelo futebol que joga, quanto como coordenador de um time que aprendeu a ter garra, jogar com tradição, não temer nem vacilar diante de adversários.

Alguns dirão que África do Sul, Iraque, Dinamarca, Colômbia e Honduras não são teste para ninguém. Mas são, sim; foram, sim. São mais do que sparrings, foram teste dessa nova configuração.

Há alguns anos, talvez desde 2006, o Brasil tem jogado com jogadores europeizados, com compromisso com esses clubes, suas éticas de futebol e sua hierarquia de poder. Para serem aceitos, nossos jogadores têm que comer no pires desses jogadores. Têm que se acostumar com as culturas desses países que são um suplício para a cultura brasileira. Aguentar morar em Berlin, Toulouse, Liverpool, ou em pequenas cidades europeias — só como castigo para fazer um bom pé de meia. 2006, 2010 e 2014 representaram um futebol de mimimis. Jogadores se esbaldando em vaidades, em sucesso fugaz, achando-se europeus, praticantes de novas tradições futebolísticas. Sem fibra e sem espírito de tradição brasileira. Uns novos vira-latas, para lembrar Nelson Rodrigues.

Será que Neymar é também assim, com seu gosto por farras e exibicionismos? Parece que sim, todo mundo pensa assim. Mas Neymar joga o mesmo futebol que aprendeu a jogar no Santos. Dribla, corre, chuta, cabeceia, movimenta-se, chateia adversários, leva pancadas, sempre igual. É um futebol à la Garrincha, que “humilha” o adversário, daí Neymar apanhar tanto.

Algo aconteceu nessas últimas semanas com Neymar, e no confronto com o público brasileiro nesses últimos jogos. Neymar deu uma rápida amadurecida e soube responder com um espírito de liderança, altivez e segurança que poucos achavam que ele teria.

Neymar foi marrento, provocador, birrento e moleque com os colombianos e hondurenhos nos primeiros minutos desses dois jogos. Mas, como não sê-lo, diante da vontade de bater que esses nossos irmãos latinos demonstravam com o intuito de amedontrar os nossos jogadores? Quem não se lembra a covardia do jogador da Colômbia no jogo da Copa de 2014 que contundiu Neymar na coluna dorsal de uma forma tão covarde e perigosa?

Pois Neymar soube ser birrento e impôs algo que faltava no futebol brasileiro dos últimos tempos. Neymar não é zagueiro, não tem cara de mau, não é parrudo. Mas fez o que tinha que fazer para dar uma reviravolta no nosso futebol. E, por cima de tudo, foi gentil com os adversários, depois de passar sua mensagem, e eles a aceitarem, ou se conformarem com quem é melhor. Ao final, foi cumprimentar todos os jogadores, a comissão técnica de Honduras, os juízes, o público, enfim.

O Brasil vai ganhar mole no sábado. Mas, é claro, vai perder também em próximos jogos.

Mas se essa lição for bem absorvida, teremos nova chance na renovação do nosso glorioso futebol.

Mais classe, mais confiança, mais luta, mais fibra — eis o que podemos nos comportar daqui por diante.